Ana Maria é acupense. As lembranças de infância do Nego Fugido causando euforia, admiração e pavor aos adultos e as crianças nos domingos de julho, despertaram-na o desejo de analisar historicamente a representação. O resultado foi a tese de mestrado “Nego-Fugido, Memória e Representação da Liberdade Escrava no Recôncavo Baiano” defendida na PUC de São Paulo, em 1995. Na atualidade, está interessada no estudo das relações sociais e culturais na área de saúde.

Acupe Recontando História

(Texto baseado na Tese de Mestrado defendida pela PUC, São Paulo, 1995) Ana Maria de Aragão Ramos

Acupe é uma comunidade majoritariamente formada por afros-descendentes. Como em outras áreas que circundam a Baía de Todos os Santos, sua economia baseia-se essencialmente nas atividades vinculadas à pesca artesanal; muito embora, a agricultura de subsistência e o pequeno comércio sejam também parte da economia local. No entanto, o que chama a atenção nessa comunidade de pescadores é sua originalidade em ter criado o Nego Fugido e nele ter reconstruído, de maneira lúdica, o passado colonial.

História, memória e identidade. No Nego Fugido os acupenses construíram uma versão sobre alforria, ao tempo em que, estabeleceram o vínculo de identidade com os ancestrais escravos. Tal habilidade em representar um passado tão destacável para a região, o fez importante em seu papel enquanto memória, enquanto história numa perspectiva popular e enquanto revelação sobre a origem da população acupense. Ao representarem a liberdade e a festa que ocorria na semana que procedia à última apresentação, os antigos deixaram a mensagem sobre quem era a população do Acupe nessa época. Além do mais, sua capacidade em representar diversos personagens e momentos da vida cotidiana escrava, tal como o escravo, o senhor, o capitão-do-mato, o rei, o batuque, a fuga, a captura e a luta do escravo para angariar fundos em prol da alforria, o fez distinto entre as tradições orais do Recôncavo Baiano.

Tradição mantida pela oralidade. Elaborado pela primeira geração de pescadores em algum momento após a Abolição da Escravatura em 1888, este teatro popular revelou-se pela qualidade de ser entretenimento e história oral.
Antigos pescadores em saias de folhas de bananeira, rostos pintados com pasta de carvão e mascando papel vermelho saíram às ruas, nas tardes de domingos do mês de julho, brincando e mostrando suas impressões sobre a história de liberdade dos escravos. Alguns talvez tenham vivido, outros vivenciado e ainda aqueles que só ouviram falar sobre as experiências de vida escrava divertiam-se enquanto recontavam a história do fim do cativeiro. A representação começava quando um grupo de escravos, supostamente fugitivos, em círculo ao som dos atabaques cantavam e dançavam numa das esquinas da, na época, Vila de Acupe.
Surpreendidos pelo capitão-do-mato, alguns eram capturados enquanto outros conseguiam fugir.

Rumo em busca da liberdade. Amarrados pelos pés ou tornozelos, os fugitivos eram encaminhados, pelo capitão-do-mato, em direção ao senhor de engenho. Durante o trajeto, os escravos solicitavam dinheiro dos moradores, mas ao invés de buscarem ao senhor, eles terminavam na presença do rei com o qual negociavam a liberdade. O batuque, a captura, a solicitação de dinheiro e o encontro com o rei repetiam-se ao longo das tardes dos domingos de julho. No último final de semana do mês, o rei era preso e seu resgate figurava como parte da negociação na qual se concretizava a alforria dos escravos. No domingo seguinte, com o dinheiro arrecado durante as representações, fazia-se uma feijoada aberta à comunidade. Desta forma, além de mostrarem uma versão de história da liberdade com o próprio escravo comprando sua alforria, esses antigos moradores organizavam um espaço de lazer para a comunidade. É bom lembrar que se tratava de um período entre o final do século XIX e começo do século XX, num Acupe sem energia elétrica e sem estrada de rodagem. Com restrições de acesso a transporte e comunicação, manifestações de caráter popular, a exemplo do Nego Fugido, eram essenciais para o lazer local.

Nego Fugido, uma tradição oral. Muito do que se sabe sobre o Nego Fugido foi passado aos atuais representantes pelos participantes do final da primeira metade to século XX. A exemplo, podem ser citados os senhores Esmeraldo Marinho Vinhas (falecido), Domingos Néri dos Santos (falecido), Evaristo Astério dos Santos (falecido) e José Ramos dos Reis. Esses, por sua vez, aprenderam com os criadores e integrantes da virada do século XIX e começo do século XX. Depois de um período de quase desaparecimento, marcado por esporádicas apresentações entre as décadas de 1970-80, o Nego Fugido ressurgiu em 1987. Isso se deu pela iniciativa de Florisvaldo Lima Paiva, a participação de Valdeci Santana dos Santos, a colaboração de Edna Bulcão e as informações dos antigos participantes, acima mencionados. Modificado para atender as exigências de caráter folclórico, turístico e de redefinição de identidade negra da atualidade, o Nego Fugido é uma presença viva nas ruas de Acupe. A elaboração do lazer usando a memória sobre a escravidão como fonte de inspiração, não se deu por acaso. Inserindo o Acupe no contexto do Recôncavo, cenário principal da escravidão na Bahia, pode-se compreender a origem dessa manifestação popular. O local onde se desenvolveu a vila era parte integrante do engenho Acupe. Daí então, é possível imaginar, um grupo de pescadores não alfabetizados, constantemente lembrando ou ouvindo histórias sobre a escravidão, se apossando dessas memórias do cotidiano escravo e transformando-as em atividade lúdica. Para o final do século XIX e começo do século XX, sem dúvida, essas eram as lembranças mais marcantes na memória local. Nessa época, a vila era formada fundamentalmente por ex-escravos dos engenhos Acupe e São Gonçalo do Poço, Fazenda Itapema e Fazenda Campo Grande assim como os dos engenhos Britos, Horta, Bângala, Trindade, Murundu entre outros da região. Embora não se possa afirmar que houve claro propósito dos antigos moradores em legarem às gerações posteriores uma perspectiva de história da escravidão, assim o ocorreu. Usando personagens e atividades do cotidiano escravo, o Nego Fugido trouxe e traz para as ruas e para o povo de Acupe o passado importante como história, memória, identidade, além de garantir o espaço lúdico para a comunidade.