NEGO FUGIDO

Um dos mais ricos, fascinantes e significativos espetáculos de teatro popular do Brasil é o Nego Fugido. Durante os quatro domingos do mês de julho as ruas do distrito de Acupe transformam-se num grande cenário a céu aberto de um dos mais fascinantes espetáculos populares já vistos, no que se refere a riqueza dramática e significado histórico. Para os integrantes do grupo, o espetáculo não passa de uma mera brincadeira que retrata a perseguição, captura e libertação dos escravos fujões.

O espetáculo é apresentado em média por 40 figurantes. Os negros são representados pelos personagens chamados de “Negas”, que são dramatizados por crianças. Os caçadores, geralmente, são homens robustos, com uma grande capacidade física para executar os movimentos corporais intensos, exigidos na dinâmica do drama. Eles usam saias feitas de palha seca de bananeira para dar uma idéia de camuflagem no momento da captura dos negros nas matas fechadas. O rosto pintado com uma mistura de óleo de comida e carvão, e a boca com o tom avermelhado, representando o sangue e o sofrimento dos negros escravos, confirmam a força dramática imposta na apresentação, o que por vezes causa um choque nas pessoas que vêem o espetáculo pela primeira vez. O Capitão do Mato representa a figura de um homem mau e valentão que liderava tropas de caçadores que iam à captura dos escravos que fugiam para os quilombos.

No drama do Nego Fugido, a presença do poder do Estado é caracterizada pelos soldados que protegem o Rei contra as investidas dos caçadores, e que curiosamente substituem os senhores donos de escravos, num momento culminante do espetáculo, no qual os negros exigem a presença do Rei para cobrar a carta de alforria.

A Princesa Isabel é representada pela figura da Fada Madrinha. Vestida com roupas brancas e um lenço em punho, a Madrinha é o elemento de equilíbrio entre a guerra e a paz envolvendo negros e brancos, além de simbolizar um sentimento que é característico do povo brasileiro: que é o perdão.

Considerado único pelas suas características, o espetáculo é iniciado com toques de atabaques e acompanhado de cantos criados especificamente para a apresentação, e que, na sua maioria, contêm elementos de línguas de origem africana.
As músicas anunciam o que irá acontecer nas cenas. Ao ouvir o som dos atabaques as “Negas” começam a dançar, enquanto os caçadores assediam os fugitivos girando em círculo, ao mesmo tempo em que disparam vários tiros de espingardas carregadas com espoletas. Ao serem atingidas, as “Negas” caem e são amarradas pelos caçadores que as obrigam a percorrer as ruas de Acupe para pedir dinheiro e comprar a sua alforria.

Esta parte do espetáculo se repete durante os três primeiros domingos de julho. O desfecho final só ocorre no ultimo domingo desse mesmo mês, quando acontece a prisão do rei. Nesta fase do espetáculo, é travada uma grande batalha entre soldados e negros. Os caçadores se unem aos negros e começam a guerrilhar contra os soldados até capturar o Rei. Preso pelos negros e caçadores, o Rei é obrigado a dar a carta de alforria que é lida pelo Capitão do Mato. Após a leitura da carta inicia-se uma grande festa em comemoração à abolição da escravatura.

Durante a apresentação, grupos de caretas, mandus e bombachos percorrem as ruas de Acupe. Essas aparições não têm uma relação direta com a apresentação do Nego Fugido, são um espetáculo à parte.

Fundindo elementos da dança, da música de candomblé e do teatro, o Nego Fugido oferece ao seu público, o conhecimento sobre um dos mais importantes momentos da nossa história. Mas o mais fascinante é que o espetáculo não conta uma história oficial do nosso país, como aquelas encontradas nos livros e contadas nos grandes centros acadêmicos, e sim uma história vista sob o foco da comunidade negra de pescadores que é a comunidade acupense.

Há mais de um século Negou Fugido contribui para a preservação da cultura e da memória da história de Santo Amaro, e até hoje não foi reconhecido o seu verdadeiro valor.

Atualmente, o grupo luta para conseguir a sua sede própria. Sem o apoio efetivo dos poderes públicos, a entidade conta com a bondade de Dona Santa, que há mais de 30 anos assumiu a liderança do grupo, e com muita força e determinação o mantêm vivo, fazendo jus ao nome do seu personagem, Fada Madrinha.

Moni Santo